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20 de Novembro de 2017

Estamos virando pedras

Emerson Prado
Publicado por Emerson Prado
há 2 anos

Estamos atravessando, neste momento (julho de 2015), três crises: econômica, política e hídrica. As pessoas se desesperam e travam batalhas intermináveis e incontroláveis sobre quem é mais culpado, quem está mais certo sobre o quanto ainda vamos sofrer e quem deve ir para a fogueira por elas.

Mas estas crises passarão. Como qualquer outra crise política ou econômica. Talvez façamos a hídrica continuar e se repetir. Mas o que mais me preocupa hoje é a crise humana. Esta, se não mudarmos nosso comportamento, vai se agravar, se alongar, e causar outras crises como as que vivemos hoje.

Estamos virando pedras.

Pedras não agem, apenas reagem. Apenas se deixam levar pelos ímpetos raivosos e violentos dos outros, que as jogam para quebrar o que lhes incomoda. São jogadas pra lá e pra ca, representando um ódio que não entendem nem controlam. Ao caírem, arrancam lascas de outras pedras e, mesmo que não percebam, de si próprias. Às vezes, quebram vidros, outras pedras e, mesmo que não percebam, a si próprias.

As pessoas estão exatamente assim hoje em dia. Frente a qualquer problema, ou simples questionamento, apenas reagem, deixando algum ódio irracional conduzir a conversa. "Qual acusação ou xingamento é o mais eficiente para acabar com este que colocou minha crença em xeque?". Não há mais interlocutores - há adversários, ou mesmo inimigos. Apenas caem uns sobre os outros, arrancando lascas dos outros e, mesmo que não percebam, de si mesmos, jogados por "mãos invisíveis" que trazem o ódio a ser representado pelas pedras, digo, pessoas. Pessoas que não entendem nem controlam este ódio.

Cheguei a ler notícias de que muitas amizades foram desfeitas por discordâncias, especialmente em época de eleições. Amigos foram jogados uns contra os outros, arrancando lascas suficientes para acabar com a amizade. Em nome da "mão invisível", que nunca fez parte da amizade - que, aliás, nem conhecia as pedras, digo, pessoas, nem virá a conhecer.

Lembrei também das manifestações de 2013, enormes e literalmente incendiárias, mas que passavam a impressão de que não tinham qualquer mensagem concreta. Estavam apenas sendo jogados por uma "mão invisível", e tomando "pedradas" da polícia, guiada pela mesma "mão invisível". Inclusive, subiu no teto do Congresso, e elegeu um Congresso pior ainda no ano seguinte (pronto, já dei a minha "pedrada").

E este é o "resumo da ópera": alguma força que não faz parte de nós, nem se preocupa conosco, é capaz de fazer com que nós arranquemos lascas uns dos outros e, mesmo que não percebamos, de nós mesmos. Especialmente porque nós permitimos.

Enfim, é urgente percebermos que, sendo usados como pedras, nunca construiremos algo. Continuaremos sendo jogados pra lá e pra ca, quebrando e destruindo, sem criar qualquer coisa que sirva a nós ou às pedras futuras. No máximo, construiremos muralhas, separando pedras de outras pedras, sempre de acordo com a vontade da "mão invisível" que quer que as pedras se lasquem.

Se, um dia, quisermos construir algo, seja uma nação, uma sociedade, ou até um pequeno aprendizado para lidar com as outras crises, não tem opção: temos de deixar de ser pedras.

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4 Comentários

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É importante nesse momento de crise, criarmos um ambiente favorável onde quer que atuemos. continuar lendo

Exatamente isso. E não apenas em momentos de crise. Se criássemos um ambiente que favorecesse o diálogo e a cooperação, em vez da agressão e competição, todos os assuntos avançariam. E é tão simples... continuar lendo

Em referencia a esse argumento: "Qual acusação ou xingamento é o mais eficiente para acabar com este que colocou minha crença em xeque?"

Algo que tem inflamado mais ainda os ânimos é a troca do substantivo Lixo para adjetivo. Houve uma falsa intelectualização do termo, "Você é um lixo de pessoa!", "isso é um lixo!"...
Nunca vi tanta gente usando de forma tão repetitiva e abrangente. Talvez com o objetivo de encerrar o debate, acaba por acirrar ainda mais a discussão.
Viramos pedra do lixão! continuar lendo

Pois é, o objetivo é encerrar o debate com um "knock-out" do "adversário", para o que a resposta deve ser violenta o suficiente. Pior que não é difícil apenas apresentar argumentos e tentar colaborar com uma discussão. continuar lendo